blog

O Crescimento da área de relações internacionais no Brasil

Diante da dissolução dos fenômenos que conferiam segurança ao nosso status de especialistas, diante da dissolução das fronteiras institucionais que pareciam outorgar à prática acadêmica função, lugar e parâmetros, diante da dissolução de projetos políticos que impunham direção normativa aos programas de pesquisa, paradoxalmente, examinar a contribuição brasileira à disciplina de relações internacionais e nossa inserção no debate internacional permite avaliar diálogos possíveis e silêncios inaceitáveis.

Neste artigo, analisarei a produção acadêmica brasileira no campo das relações internacionais, tendo como marco temporal a década de 90. O objetivo é detectar as principais características, tendências e ausências da bibliografia sobre essa área de estudos gerada nesse período. A análise irá se limitar aos trabalhos que têm como referencial primordial as relações políticas entre os diferentes atores relevantes do sistema internacional, sendo tratada, fundamentalmente, a produção de especialistas em relações internacionais. Dessa forma, a bibliografia nos campos da economia e do direito internacional e os trabalhos desenvolvidos no âmbito militar não serão abordados neste artigo. Os principais representantes do "pensamento diplomático" brasileiro serão mencionados apenas na medida em que se observa a constituição de um diálogo com os especialistas citados.

A partir de um exame da produção nacional sobre os temas contemplados pela área de relações internacionais - política externa dos Estados, instituições internacionais, natureza do sistema e da política internacional, estratégia e política de defesa -, é possível revelar o duplo caráter da bibliografia produzida até final dos anos 80: a recuperação histórica e a prescrição quanto à política externa do país. Os principais debates teóricos e epistemológicos que marcaram o desenvolvimento da área de estudos na Europa, Estados Unidos e outros centros não haviam alcançado os pesquisadores brasileiros até recentemente. Esse quadro começa a se modificar nos anos 90. Assim, hoje, observamos que o debate pós-positivista iniciado nos anos 80, e a conseqüente influência de autores pós-modernistas, construtivistas ou aqueles vinculados à teoria crítica nos grandes centros, a crescente influência de análises que se voltam para a interação das esferas doméstica e internacional, resultado da crise de soberania do Estado e da exclusividade da jurisdição disciplinar, e as revisões do pensamento realista, encontram expressão em fóruns, teses e trabalhos publicados no Brasil.


Compartilhar :